Por Juliana Americo

Engenharia genética na conservação: o que a biotecnologia pode fazer pela biodiversidade?

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Como restaurar aquilo que já foi perdido?
Essa pergunta, central para a biologia da conservação, começa a ganhar uma nova resposta: a engenharia genômica aplicada à biodiversidade.

Um artigo recente publicado na Nature Reviews Biodiversity propõe incorporar a edição genética às estratégias de conservação da natureza. Segundo os autores, liderados por pesquisadores da University of East Anglia e da Colossal Biosciences, a biotecnologia pode oferecer ferramentas inéditas para restaurar a diversidade genética de espécies ameaçadas e aumentar sua capacidade de adaptação frente a um planeta em mudança.

Da proteção à restauração genética

Hoje, a conservação da biodiversidade se apoia em práticas como:

  • Proteção de habitats naturais;
  • Programas de reprodução em cativeiro;
  • Controle de espécies invasoras;
  • Reintrodução de espécies em áreas recuperadas.

Essas ações — chamadas pelos autores de “primeiros socorros” — são eficazes para evitar extinções imediatas. No entanto, elas não conseguem restaurar o que já foi perdido dentro do próprio DNA das espécies: sua diversidade genética, essencial para a adaptação a novas ameaças, como mudanças climáticas, doenças e degradação ambiental.

É aí que entra o que os autores chamam de “segundo socorro”: a engenharia genômica como um instrumento de reparo do potencial evolutivo.

O que é erosão genômica?

A erosão genômica é a perda progressiva de diversidade genética em uma população. Isso pode ocorrer por vários motivos, como:

  • Redução drástica do número de indivíduos (gargalo populacional);
  • Isolamento geográfico, que impede a troca de genes entre populações;
  • Acúmulo de mutações deletérias ao longo das gerações;
  • E principalmente, endogamia — quando indivíduos aparentados se reproduzem entre si.

Em alguns casos, uma espécie ameaçada pode se recuperar numericamente, aumentando sua população. Isso é chamado de êxito demográfico. Porém, mesmo com mais indivíduos, a diversidade genética pode continuar baixa — o que deixa a espécie vulnerável a novas pressões ambientais.

Exemplo prático: se uma população de mil indivíduos descendem de apenas cinco sobreviventes originais, eles terão quase os mesmos genes. Ou seja, serão muitos, mas geneticamente semelhantes — e com capacidade reduzida de responder à desafios ambientais, como doenças.

O que a engenharia genética pode fazer?

Com ferramentas como edição de genomas (ex: CRISPR), reprodução assistida, genômica comparativa e biobancos, é possível:

Reintroduzir variantes genéticas adaptativas perdidas, a partir de material genético preservado em museus, coleções e amostras congeladas;

Reduzir a carga genética deletéria, eliminando mutações nocivas que se acumularam por endogamia;

Transferir genes de resistência ou adaptação entre populações ou espécies aparentadas, por meio de engenharia genômica ou cruzamentos controlados;

Tornar populações mais resilientes a novos desafios ambientais, como patógenos, secas, calor extremo ou poluição.

Essas estratégias representam um reforço técnico-científico altamente promissor para a conservação, especialmente em um planeta onde a perda de biodiversidade avança mais rápido do que as soluções tradicionais conseguem conter.

Ética, risco e governança

A introdução de biotecnologias na conservação não vem sem controvérsias. O artigo enfatiza a necessidade de:

  • Avaliações rigorosas de risco ambiental;
  • Participação de comunidades locais e povos tradicionais;
  • Transparência científica e comunicação com o público;
  • Equidade no acesso a tecnologias e nos benefícios de sua aplicação.

Ou seja: mais do que apenas uma questão técnica, trata-se de um desafio de governança, ética e diálogo intersetorial.

A experiência da Bio Bureau

Na Bio Bureau, já exploramos essa fronteira entre inovação genética e conservação em projetos como o controle biotecnológico do mexilhão-dourado, uma das espécies invasoras mais danosas do Brasil. Nosso objetivo com esse projeto é desenvolver uma linhagem geneticamente modificada que, ao se reproduzir com populações selvagens, dissemine a infertilidade e leve as populações invasoras ao colapso, utilizando um mecanismo de gene drive com CRISPR/Cas9.

Esse é um exemplo concreto de como a biotecnologia pode ser usada para restaurar o equilíbrio ecológico e proteger os ecossistemas dos impactos negativos causados por invasões biológicas.

Um novo capítulo para a conservação

A mensagem do artigo da Nature Reviews é clara: não há mais tempo para dicotomias entre “tecnologia” e “natureza”. O enfrentamento da crise da biodiversidade exigirá um arsenal de soluções que combine:

  • Conhecimento ecológico tradicional;
  • Ferramentas biotecnológicas de ponta;
  • Governança ética e inclusiva.

A engenharia genômica não substitui a conservação tradicional, mas pode ser a chave para torná-la viável no longo prazo, diante das rápidas mudanças ambientais que vivemos.


📚 Referência completa:

Van Oosterhout, C. et al. (2025). Genome engineering in biodiversity conservation and restoration. Nature Reviews Biodiversity. https://doi.org/10.1038/s44358-025-00065-6


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