Por Mauro Rebelo

Combate a espécies invasoras na COP da Biodiversidade

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As acaloradas discussões sobre biotecnologia e biodiversidade na COP14 confirmam a percepção crescente no Brasil que os problemas ambientais são, na verdade, problemas sociais.
Entre esses problemas, está o distanciamento da população geral, especialmente das populações tradicionais e pobres em áreas de floresta, dos avanços tecnológicos experimentados nas universidades e em grandes centros urbanos. “Quem vai se apropriar dos benefícios. dessas tecnologias?”
Não importa que haja uma lei de repartição de benefícios. As populações tradicionais querem ser ouvidas nos processos decisórios, ainda que elas não tenham plena compreensão das tecnologias e seus impactos. Isso vale para toda sociedade, já que sem cientistas, não é possível compreender esses avanços e nem mesmo traduzi-los para a sociedade. E o Brasil tem menos da metade da média mundial de cientistas por 1 milhão de habitantes.
Na incapacidade de compreender os fenômenos que estão acontecendo e de opinar de maneira informada sobre eles, essas populações recuam e, motivadas pelo medo, optam por propor banimento e moratória das tecnologias: DSI (digital sequencing information) Gene drive (evolução direcionada e acelerada de uma espécie ) e biologia sintética (modificação genética com DNA sintetizado em laboratório).
Enquanto se preocupam com problema possíveis mas improváveis (a transferência de genes de um organismo geneticamente modificado para a população natural), os problemas reais e imediatos, como a dispersão de espécies invasoras pelo transporte de mercadorias, pelo turismo; a perda de habitat por queimadas e outras práticas de baixa tecnologia, passam ao largo da discussão.
‘Temos que estimar o custo de não fazer nada’ dizia um pesquisador africano em uma sessão sobre o potencial para salvar vidas dos mosquitos do gênero Anopheles (que transmitem a Malária) geneticamente modificados para espalhar a infertilidade. A malária ainda è o flagelo da humanidade e a doença que mais mata no mundo. Especialmente na África. As tecnologias atuais de combate do mosquito não tem pô tencial para eliminar o problema e as projeções indicam que milhares de pessoas continuarão morrendo por causa da Malária se não fizermos nada. Não utilizar todas as ferramentas ao nosso dispor, especialmente as de alta tecnologia, para enfrentar nossos problemas é que deveria ser o verdadeiro crime. Mas os líderes das comunidades tradicionais, que são os que morrem por causa da doença, perguntam o que acontecerá com eles quando cometem os peixes que comeram os mosquitos geneticamente modificados? Eles correm o risco de sofrerem mutações e ficarem inférteis? Podem morrer? Como explicar para essas pessoas o quão segura é a tecnologia que eles não podem entender? Há 30 anos alimentamos os rebanhos do mundo com grãos geneticamente modificados e não existe nenhum caso documentado de morte ou efeitos colaterais. Mas se as pessoas que morrem por causa da malária não são convencidas pelos argumentos técnicos e lógicos, como podemos esperar convencer toda a sociedade?
São perguntas que não sei responder, mas para as quais tenho certeza que o banimento e a moratória não são a resposta. Nunca, na história da humanidade, uma civilização avançou refutando avanços tecnológicos. Nunca, a interferência do governo na determinação do que pode ou não pode ser pesquisado pelos cientistas resultou em um melhor uso da tecnologia.
A ciência avança ao desafiar o conhecido. Ao forçar os limites do conhecimento. É inevitável que isso tenha impactos na sociedade. A possibilidade de transplantar órgãos e salvar milhares de vidas levou a sociedade a discutir a própria definição de vida e morte.
Mas essa discussão é lenta. Os mecanismos atuais, que tive chance de presenciar na cop como representante da delegação brasileira, são incrivelmente morosos. Delegados de mais de 150 delegados de reúnem em lem o texto das diretrizes palavra por palavra, parando para discutir cada vez que um país levanta um destaque.
Talvez o que precisamos seja de mais tecnologia social, novos mecanismos para acelerar a discussão e a tomada de decisão em sociedade. Mais biotecnologia e mais sociotecnologia. Até lá, a tendência da COP tem sido priorizar o ponto de vista técnico. E mais uma vez foi o que vimos, com a criação de uma câmara técnica para discussão do uso de gene-drive no ambiente.
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Com Elisa Dezolt da CNI e Frineia Resende da Reservas Votorantim no side-event Business Approachea to Aichi Targets na COP14